TRÓIA A CAVALO
Chega-se à Península de barco. Com sorte cruzamo-nos com os golfinhos, apadrinhados pelos nossos cientistas com o gentil nome de roazes (parece uma afecção do estômago, mas é mesmo nome). A vegetação acolhe-nos, natural e estranha para quem vem da cidade grande. Ainda não cheira a mar, que o óleo dos barcos não deixa, mas lá chegaremos.
Ao fundo as torres: os abortos setentistas que não dão sinal de se sumirem. Torraltas erguidas ao céu pela mão criminosa de quem achava que o progresso era para cima. Os mesmo que rumaram a sul e afogaram nas águas tépidas do Algarve a galinha que era de todos.
Há uma paz em Tróia que não se sabe de onde vem. Não há-de ser da cimenteira em frente, essa Palmela Adersen que estende os seios cinzentos ao rio... Nem dos veios abertos na serra da Arrábida, que não levarão mais de dois milhões de anos a recompor-se...
Há-de ser dos pássaros que insistem em esconder-se nos arbustos, ou dos movimentos dos moluscos que emergem da maré baixa.
Se tudo se concretizar conforme o conluio instituido (dar uma vista de olhos aqui ou aqui), os pássaros irão para longe e as únicas coisas moles serão as coxas das inglesas que irão engordar os bolsos dos nossos industriais. Mas a quem interessa o futuro, se existem placas para não pisar as dunas ao lado de vivendas novo-ricas que nascem, impúdicas, das mesmas?
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